…No dia em que lembrasse, escreveria um livro. (deixar de lado >> editar)
Estava relendo um de seus livros favoritos quando sorriu e pensou: é isso. Mas não conseguia ir além. O que? A qualidade era fugidia, mas estava impregnada naquelas páginas familiares. Parou e ficou pensando. Olhou para a prateleira de livros e sem ter certeza do que estava fazendo pegou um livro, depois outro. Aos poucos uma pequena pilha se formou. Não havia muita semelhança entre os livros; quer dizer, todos lhe eram caros – daqueles que gostava de dizer o nome junto ao amigo apenas para provocar aquela conversa gostosa sobre o que lhes fazia feliz; aquela admiração compartilhada que não gerava grandes conseqüências mas que deixava o espírito leve.
Percebeu que naqueles livros estava algo que lhe dizia respeito. Sim, desejava escrever um livro que estava em algum lugar, perdido entre aquelas páginas alheias e tão pessoais. Não conseguia localizar com exatidão qual característica de cada livro lhe era necessária – talvez nenhuma em particular, mas algo que flutuava no ar rarefeito que teimava em separar os livros. Não se tratava da essência de cada um, nem da mistura dos extratos. Algo diverso. Uma chama discreta e um querer indefinido.
Verdade que havia a concisão. Nenhum dos livros era volumoso: discretos. Seus temas e tratamentos poderiam agradar a Tchekóv, talvez não; melhor não havia um tema definido – é isso livros bruma no qual habitava.
Não conseguiu registrar nem evoluir na reflexão; muitas palavras soltas e dificuldade em organizar algo que fizesse sentido – se houvesse. Ficaram os livros sobre a cama e uma certa tristeza. Pensou em alguma forma de luto, na reorganização necessária após a perda, na dificuldade em estabelecer o que foi mesmo que foi perdido. No dia em que lembrasse, escreveria um livro.
Comentários