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da dificuldade

Muito já se disse a respeito da música de João Gilberto, de seu modo de tocar, cantar e até mesmo de seu também peculiar modo de se relacionar com os outros. Mas depois de conhecer Gilberto, mesmo à distância, há mais de quarenta anos, acredito que muito do que ele é, ou aparenta ser é motivado pelo fato de ninguém nunca ter vislumbrado a verdadeira natureza de sua música.

O inconformismo viria do fato de que desde cedo ele percebeu qual o caminho a seguir e tentou tornar o mesmo o mais simples possível para que as pessoas pudessem entender o que estava acontecendo, ele não queria ser Jandek, o exoterismo não lhe atraía. Também não cogitava em entregar o jogo como Sufjan Stevens, especialmente por acreditar que ao entregar um projeto que tomaria toda a vida para ser concluído, ele apenas tornaria claro a impossibilidade da execução e mais evidente o ridículo da situação.

Além de tudo Gilberto sabia que seu projeto não era fechado, não havia um objeto a alcançar, nunca estaria satisfeito, apenas vislumbrava que no lugar da usual carreira, construiria uma narrativa.

Ele nunca tentou construir algo teoricamente, apenas percebeu enquanto realizava suas inovações na gênese de gêneros e procedimentos. Após lançar seus três primeiros álbuns percebeu que ali havia uma narrativa, mas que esta não necessariamente contava uma história, mas que poderia construir um fluxo que absorveria tudo, que dialogaria com os desenvolvimentos ultrapassados, sem uma linha temporal definida.

Após alguns anos, percebeu que sua narrativa não apenas incluía suas apresentações e gravações, mas também os ensaios, as composições, as recriações, os momentos em que, sozinho, ruminava o próximo caminho, o retorno, a pausa necessária.

Daí teria vindo o desespero, o isolamento, como seria possível que tudo não fosse perdido? Se existia a dor de ninguém nunca ter se aproximado da verdade, esta nova verdade era inalcançável e também impronunciável.

À partir de então, já idoso, sonhou com a possibilidade de transpirar os intervalos. Cada apresentação era uma síntese que além de ser a continuidade da narrativa, espelhava tudo o que até então fora impossível de perceber, cada gravação tentava o universal. A síntese total. Ninguém percebeu.

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