Sabotagem
Ele queria escrever, páginas e páginas. Lia compulsivamente, acumulava livros – eram extensão corpo, impregnavam seus dias e constituíam parte indistinguível de seu pensamento.
Várias foram as tentativas de escrever – contos, romances, blogs, diários, ensaios, críticas, observações – todos imaginados com entusiasmo, iniciados com interesse e abandonados logo em seguida.
Sua única realização foi o acúmulo de inícios. Durante muito tempo imaginou um livro que consistiria da enumeração dos falsos inícios e da dificuldade em dar continuidade a qualquer projeto.
Anotava em folhas de papel, agendas, blocos de papel, post-it, cadernos, cadernetas, papel de rascunho, margem de livros, face internas de capas e contra-capas, documentos, jornais, nota-fiscais, na parede ao lado da cama. Odiava o lápis e a grafite.
Quando passou a usar o computador, com seu característico apagar do processo, emendas, rasuras e correções, acreditou que poderia ficar menos entorpecido, por perceber as múltiplas possibilidades e escolhas sem mirar o que havia sido deixado para trás.
Gostei muito deste texto. Sinto-me saturado de inícios e de projetos engavetados: ensaios q não termino, romances q não se completam, poemas q esqueço nas ruas , nas fachadas dos prédios e em olhares q nunca mais verei.
p.s: visite os blogs “belvederepoesiaemusica.blogspot.com” e “agavetaesquizo.blogspot.com”.
p.s 2: voltarei outras vezes