Carver (pigarros)
Tem algumas passagens de contos do Carver em que algum personagem deixa de dizer alguma coisa, outro espera que seu interlocutor fale aquilo que ele deseja ouvir, mesmo sabendo de antemão que nada será dito.
Outros consomem com a angústia, a excitação de uma mudança indefinida que estaria por vir e enquanto isso vão cometendo os mesmos erros ou deixando de fazer aquilo que acreditavam necessário…
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Durante muito tempo quis voltar aqui mas não sabia como, ainda não é o que deve ser, mas vou tentar continuar escrevendo e mantendo este lugar para meus rascunhos – capengas e trôpegos, mas tão necessários quanto aquele velho cachorro.
…No dia em que lembrasse, escreveria um livro. (deixar de lado >> editar)
Estava relendo um de seus livros favoritos quando sorriu e pensou: é isso. Mas não conseguia ir além. O que? A qualidade era fugidia, mas estava impregnada naquelas páginas familiares. Parou e ficou pensando. Olhou para a prateleira de livros e sem ter certeza do que estava fazendo pegou um livro, depois outro. Aos poucos uma pequena pilha se formou. Não havia muita semelhança entre os livros; quer dizer, todos lhe eram caros – daqueles que gostava de dizer o nome junto ao amigo apenas para provocar aquela conversa gostosa sobre o que lhes fazia feliz; aquela admiração compartilhada que não gerava grandes conseqüências mas que deixava o espírito leve.
Percebeu que naqueles livros estava algo que lhe dizia respeito. Sim, desejava escrever um livro que estava em algum lugar, perdido entre aquelas páginas alheias e tão pessoais. Não conseguia localizar com exatidão qual característica de cada livro lhe era necessária – talvez nenhuma em particular, mas algo que flutuava no ar rarefeito que teimava em separar os livros. Não se tratava da essência de cada um, nem da mistura dos extratos. Algo diverso. Uma chama discreta e um querer indefinido.
Verdade que havia a concisão. Nenhum dos livros era volumoso: discretos. Seus temas e tratamentos poderiam agradar a Tchekóv, talvez não; melhor não havia um tema definido – é isso livros bruma no qual habitava.
Não conseguiu registrar nem evoluir na reflexão; muitas palavras soltas e dificuldade em organizar algo que fizesse sentido – se houvesse. Ficaram os livros sobre a cama e uma certa tristeza. Pensou em alguma forma de luto, na reorganização necessária após a perda, na dificuldade em estabelecer o que foi mesmo que foi perdido. No dia em que lembrasse, escreveria um livro.
da dificuldade
Muito já se disse a respeito da música de João Gilberto, de seu modo de tocar, cantar e até mesmo de seu também peculiar modo de se relacionar com os outros. Mas depois de conhecer Gilberto, mesmo à distância, há mais de quarenta anos, acredito que muito do que ele é, ou aparenta ser é motivado pelo fato de ninguém nunca ter vislumbrado a verdadeira natureza de sua música.
O inconformismo viria do fato de que desde cedo ele percebeu qual o caminho a seguir e tentou tornar o mesmo o mais simples possível para que as pessoas pudessem entender o que estava acontecendo, ele não queria ser Jandek, o exoterismo não lhe atraía. Também não cogitava em entregar o jogo como Sufjan Stevens, especialmente por acreditar que ao entregar um projeto que tomaria toda a vida para ser concluído, ele apenas tornaria claro a impossibilidade da execução e mais evidente o ridículo da situação.
Além de tudo Gilberto sabia que seu projeto não era fechado, não havia um objeto a alcançar, nunca estaria satisfeito, apenas vislumbrava que no lugar da usual carreira, construiria uma narrativa.
Ele nunca tentou construir algo teoricamente, apenas percebeu enquanto realizava suas inovações na gênese de gêneros e procedimentos. Após lançar seus três primeiros álbuns percebeu que ali havia uma narrativa, mas que esta não necessariamente contava uma história, mas que poderia construir um fluxo que absorveria tudo, que dialogaria com os desenvolvimentos ultrapassados, sem uma linha temporal definida.
Após alguns anos, percebeu que sua narrativa não apenas incluía suas apresentações e gravações, mas também os ensaios, as composições, as recriações, os momentos em que, sozinho, ruminava o próximo caminho, o retorno, a pausa necessária.
Daí teria vindo o desespero, o isolamento, como seria possível que tudo não fosse perdido? Se existia a dor de ninguém nunca ter se aproximado da verdade, esta nova verdade era inalcançável e também impronunciável.
À partir de então, já idoso, sonhou com a possibilidade de transpirar os intervalos. Cada apresentação era uma síntese que além de ser a continuidade da narrativa, espelhava tudo o que até então fora impossível de perceber, cada gravação tentava o universal. A síntese total. Ninguém percebeu.
Sabotagem
Ele queria escrever, páginas e páginas. Lia compulsivamente, acumulava livros – eram extensão corpo, impregnavam seus dias e constituíam parte indistinguível de seu pensamento.
Várias foram as tentativas de escrever – contos, romances, blogs, diários, ensaios, críticas, observações – todos imaginados com entusiasmo, iniciados com interesse e abandonados logo em seguida.
Sua única realização foi o acúmulo de inícios. Durante muito tempo imaginou um livro que consistiria da enumeração dos falsos inícios e da dificuldade em dar continuidade a qualquer projeto.
Anotava em folhas de papel, agendas, blocos de papel, post-it, cadernos, cadernetas, papel de rascunho, margem de livros, face internas de capas e contra-capas, documentos, jornais, nota-fiscais, na parede ao lado da cama. Odiava o lápis e a grafite.
Quando passou a usar o computador, com seu característico apagar do processo, emendas, rasuras e correções, acreditou que poderia ficar menos entorpecido, por perceber as múltiplas possibilidades e escolhas sem mirar o que havia sido deixado para trás.
baliza envergada
O Século XXI se encarregou de fracionar e desfigurar os gêneros literários e as idéias consagradas da literatura. Escritores como Kafka, Virgínia Woolf, Borges, Joyce, Proust, Pessoa, estilhaçaram aquelas certezas frágeis que, precariamente, ditaram as normas da literatura no séc. XIX. Até a fronteira mais sólida que separava os dois grandes gêneros, prosa e poesia, se rompeu de vez. Hoje, já não podemos falar, com a mesma segurança, da tipologia do romance, já que os limites entre o romance histórico, o autobiográfico, o picaresco, o de formação etc., são cada vez mais flácidos. O séc. XXI se abre para a literatura com a paisagem em ruínas: escombros, balizas envergadas, destroços. um deserto é o ponto de partida daqueles que insistem no desejo de escrever. (José Castello, A Literatura na Poltrona)
O importante aqui são as balizas envergadas que traduzem, em parte, o que gostaria de registrar aqui – ruínas, esboços, rascunhos, escombros, destroços. Seria primeiro uma tentativa de escrita do leitor – um equívoco, talvez.

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